sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sai de baixo

Um homem qualquer bater em uma mulher qualquer já é coisa feia (e, mais que isso, crime). Se o homem é famoso, além de crime é motivo de grande repercussão. Agora, quando o cara é famoso, governador de um estado e pré-candidato a presidente do Brasil, aí a história ganha repercussões astronômicas.

A pessoa em questão é Aécio Neves, governador de Minas Gerais e que briga com José Serra para ser o candidato do PSDB à sucessão de Lula.

A "notícia" (as aspas, nesse caso, são necessárias) tem corrido a internet desde o início da semana. Seu emissor inicial foi Juca Kfouri - em seu blog, o jornalista esportivo afirmou que Aécio foi visto dando um empurrão e um tapa em sua "acompanhante" (mais uma vez, aspas essenciais) em uma festa no Rio de Janeiro. Mais do que divulgar, Juca bancou o fato: atualizou o post dizendo que havia recebido um comunicado da assessoria de Aécio desmentindo o ocorrido e que não mudaria uma só vírgula do que escrevera.

O anunciado por Juca Kfouri foi o complemento de história levantada por Joyce Pascowitch no Glamurama. Lá, a colunista dizia que numa festa do estilista Francisco Costa, "um dos convidados mais importantes e famosos" do evento havia dado um tapa em sua acompanhante.

A nota de Pascowitch não declarava e nem chegava a insinuar quem seria o cidadão praticante do ato. Pelo fato do seu site ser mais ligado ao mundo da moda, celebridades e afins, jamais se havia pensado em relacionar o dito com o governador mineiro. Mas Juca fez a ponte, e a confusão foi armada.

Agora começam as interpretações para o caso. Muita, muita gente na internet tem dito que a repercussão da notícia teria o dedo de José Serra - que, assim, detonaria de vez as chances de Aécio ser o candidato tucano.

Acho meio conspiratória a teoria. Serra está à frente nas pesquisas, tem recebido mais apoio das lideranças do PSDB e é bem improvável que perca o posto para Aécio (com ou sem agressão). Sem contar a possibilidade - que não deve ser descartada - da criação de uma chapa "puro sangue" tucana, com Serra para presidente e Aécio para vice. Assim, não seria muito inteligente, por parte do paulista, lançar mão de tal expediente para o mineiro.

Da minha parte, não levo muita fé nessa "armação orquestrada por Serra", como alguns têm sugerido.

Quanto a Aécio e à agressão em si... ah, isso eu deixo para a polícia, que é quem tem que tomar conta desse tipo de história.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Yes, os republicanos também can

Quando Obama venceu, muitos se ocuparam em celebrar seu triunfo como sendo um símbolo da "mudança de mentalidade" americana. Segundo essa análise, os estadunidenses, ao eleger o democrata, mostrariam ao mundo que são diferentes do que foram em 2000 e, principalmente, em 2004, ao eleger e reeleger George W. Bush.

Mas aí o tempo passa e mostra que tal análise foi um tanto quanto imprecisa. Ou que nem deveria ter sido feita.

Em eleições realizadas nessa semana, o Partido Republicano, de Bush e opositor a Obama, teve três vitórias das mais expressivas. Conquistou a prefeitura de Nova York (favas contadas, já que a reeleição de Michael Bloomberg era dada como certa) e os governos dos estados de Nova Jersey e Virginia, com Christopher Christie e Robert McDonell.

Nova Jersey e Virginia são estados importantes. Respectivamente, o nono e o 12º mais populoso da nação. E ambos localizados no Leste americano, tido como mais moderno e democrata.

Nos EUA, os republicanos têm celebrado suas vitórias como uma espécie de "ressurreição" do partido - combalido e até mesmo tido como morto após a vitória de Barack Obama no ano passado. E há quem julgue que as vitórias de Christie e McDonell são, acima de tudo, uma derrota do próprio Obama, acontecida na primeira grande eleição após a chegada do ex-senador à Casa Branca.

Vale lembrar que, também ontem, o Maine, estado no Nordeste americano, rejeitou o casamento gay em consulta às urnas.

O que tudo isso demonstra? Que o pensamento conservador nos EUA ainda é forte e não pode ser desprezado. E que não se modifica em apenas uma eleição. A vitória de Obama foi emblemática e expressiva, mas, se pegarmos a história - e não só dos EUA - veremos que regimes democráticos são assim mesmo, marcados por alternâncias sucessivas de governantes e, mais que isso, de linhas de pensamento. Nada fora do que é, ou deveria ser, o padrão.

Em tempo: não condeno, de forma alguma, a existência desse "pensamento conservador" estadunidense. Inclusive, o valorizo - a democracia tem que ter todas as correntes e acho interessante que, por lá, os conservadores não tenham vergonha de se assumir como tal (diferente da hipocrisia brasileira, quando os sujeitos mais direitistas recusam-se a se denominar assim).

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O "caso Uniban" e o jornalismo

(Antes de mais nada: esse blog endossa quase que a integralidade das manifestações de repúdio aos estudantes da Uniban que expulsaram a moça da faculdade. Não tenho muito a acrescentar nesse sentido, e por isso o post abaixo segue outro foco.)

Já é de conhecimento geral o ocorrido na Uniban, campus universitário localizado em São Bernardo, semanas atrás - uma moça foi para a aula usando um traje, digamos, impróprio, foi hostilizada por colegas por conta disso, chamada a plenos pulmões de "puta" (e outros termos) e teve que deixar a faculdade escoltada por policiais.

Interessante é a trajetória que o assunto fez até chegar ao chamado "conhecimento geral" citado acima.

Eu - e a maioria das pessoas com quem falei a respeito - tive meu primeiro contato com a questão por meio das tais fontes virais. Minha primeira referência foi o Twitter - mais precisamente, o do Arnaldo Branco. Sua mensagem remetia ao post "Polanskis do ABC", do blog Boteco Sujo, criado no dia 28 de outubro, e "twittado" no mesmo dia.

Ainda no dia 28, o "caso Uniban" pipocou por Twitters e blogs dos mais diversos e se tornou, com sobras, o assunto mais repercutido na internet nacional.

E não tardou muito para que se tornasse pauta dos veículos da grande mídia nacional. Folha, Estado, TV Globo, as rádios de destaque, enfim; todos correram atrás do caso para darem suas versões do tema. Em um primeiro momento, com matérias tímidas, em que a estudante não citava seu nome nem mostrava seu rosto; depois, veio o "escancaramento" pleno, com a moça dando a cara a tapa. O ápice disso veio com a participação dela no Geraldo Brasil, na Record, e no Fantástico da Globo.

Isto posto, vamos às reflexões.

Ponto 1: a "blogosfera" (termo odioso, mas vá lá) teve sucesso. Conseguiu fazer com que um assunto que nela nasceu se tornasse o mais comentado no Brasil (e não só entre os blogueiros) em toda a semana. Inverteu o que habitualmente se faz na net, com as notícias dos grandes portais servindo de base para posts e outros trabalhos. É fato que o ocorrido jamais chegaria ao conhecimento público se não fosse o barulho que causou, inicialmente, a um grupo restrito de pessoas.

Daí vale também destacar que a repercussão do caso só se deu devido à extensa captação de imagens que se tinha em mãos. É fácil sacar que o peso de um vídeo que mostra uma pessoa sendo hostilizada por toda uma universidade é imensamente maior do que relatos que eventualmente digam a mesma coisa. Não foi necessariamente o fato que correu, e sim as imagens dele. Visíveis, chocantes e intrigantes - e por isso mesmo propensas à disseminação.

Mas agora vem uma conclusão de certo modo contraditória. Se por um lado registramos o "triunfo" dos blogueiros e da comunicação viral, por outro precisamos da mídia convencional para que ele seja sacramentado. Não apenas porque a ação de Record, Folha, Globo e outros dá uma certa "legitimidade" à questão, mas também porque o que os grandes grupos fizeram, no caso (com exceções, é claro), foi jornalismo. Foram à Uniban, buscaram mais depoimentos, ouviram fontes que deram novas visões ao caso, investigaram o tema a fundo.

Por limitações de diversas vertentes - financeira, de equipamento, de disponibilidade, etc, etc - os blogs não foram (e raramente são) capazes de dar uma continuidade a temas que levantam. Se têm potencial pra isso? Opa, têm e de sobra. Mas precisariam aderir, a seu trabalho, técnicas e preceitos do jornalismo convencional.

Muito se fala hoje que "a internet transformou o jornalismo" - e não apenas por ser um novo suporte tecnológico, mas sim por dar a ele uma nova mentalidade. De acordo, e quem questiona isso está cerca de 20 anos atrasado em relação ao resto do mundo. Mas o que casos como da Uniban sugerem é que deveria acontecer uma retroalimentação. O jornalismo ajudando os blogs a se transformarem, a se consolidarem como veículos efetivos de comunicação. E não somente "espalhadores" de assuntos.

Abaixo, um dos vídeos originais do caso - cada vez mais raros.


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Bom para ambas as partes

Não deu tanta repercussão assim (eu pelo menos não vi) uma notícia interessante ocorrida na segunda-feira: o PP lançou o deputado Celso Russomano como pré-candidato ao governo de São Paulo.

É de certo modo compreensível o desprezo ao fato. O PP, em São Paulo, não é um partido com cacife para fazer um governador. E a eleição para o Palácio dos Bandeirantes deve mesmo ficar entre os nomes do PSDB (Geraldo Alckmin, Aloysio Nunes Ferreira ou uma terceira opção) e o que contará com PT em sua chapa (Ciro Gomes ou algum petista de carreira), com vantagem para os tucanos.

Mas o que interessa mesmo é discutir quais seriam os interesses do PP com o anúncio.

Celso Russomano é deputado federal desde 1995. Na eleição passada, em 2006, foi o segundo candidato mais votado em São Paulo, com 573.524 votos - ficou atrás apenas de seu colega de legenda Paulo Maluf (a votação expressiva de ambos fez com que coubesse ao PP o "efeito Enéas" da vez, com Aline Correa conseguindo uma vaga na Câmara com míseros 11.132 votos). A fama de Russomano vem de sua trajetória como repórter, pautada pela marca de buscar a defesa do consumidor e eternizada com o bordão que dá nome a esse post no falecido "Aqui Agora", jornalístico do SBT.

O quadro descrito acima deixa ainda mais curiosa a pré-candidatura de Russomano ao governo do estado. Afinal, sua reeleição para a Câmara é certa - tão certa como o insucesso que terá na briga pelo cargo de governador. Russomano, inteligente que é, deve ter noção de tudo isso.

Parece que PP e Russomano querem mostrar certa força para se colocarem como alguém interessante a ser cortejado. Ganhar aparição na mídia, falar sobre seu "projeto de campanha", aparecer com alguns pontos nas pesquisas de intenção de voto... e na hora H abrir mão da candidatura e concorrer com folga à vaga de deputado.

Russomano não tem aparecido nas pesquisas para o governo. Paulo Maluf, eterno candidato, é o nome do PP colocado à disposição dos eleitores nos levantamentos. Acredito que, apesar da visibilidade do jornalista, ele não terá - ao menos em um primeiro momento - o retorno do ex-prefeito.

Foto: William Volcov / Agência Estado

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Assunto complicado, reflexões despertas

Uma das notícias de mais impacto do mundo político nessa semana foi a cassação de 13 vereadores de São Paulo, ocorrida ontem. A decisão, em primeira instância, pune todos os parlamentares pelo mesmo motivo: terem recebido doações tidas como ilegais pela Justiça Eleitoral.

Todas as doações condenadas têm a mesma origem: a Associação Imobiliária Brasileira (AIB). São dois os problemas que estariam nas doações, segundo a sentença. O primeiro é o peso das verbas no montante disponível para o candidato durante a campanha - esse corte, inclusive, foi o que determinou que somente os vereadores para quem a doação da AIB representou mais de 20% do total de campanha perdessem o mandato.

O segundo ponto chave está na própria existência da AIB. Em abril, a Folha apresentou uma reportagem que sugeria que a entidade - a segunda maior doadora na campanha de 2008 - seria apenas uma laranja do Secovi, o sindicato patronal do setor imobiliário de São Paulo. A lei eleitoral determina que associações de classe, como os sindicatos, não podem fazer doações a campanhas.

Os vereadores cassados ainda não perderam o mandato. Tal situação só ocorrerá se a sentença for mantida nas duas outras instâncias que tramitará - inclusive no Tribunal Superior Eleitoral.

O caso é interessante e nos dá uma série de elementos para pensar. O principal deles: vejo como positivo, muito positivo, o fato das doações se tornarem o "assunto da vez" na política. Acho que o fortalecimento da democracia passa pela crença nas instituições eleitorais e acredito que a cultura das doações é elemento-chave para isso. A lição vem dos EUA: lá, doações pequenas, de contribuintes individuais, são tradicionais e colaboram para um sentimento de participação - e foram decisivas para o triunfo de Barack Obama, especialmente em sua disputa democrata com Hillary Clinton.

Talvez a questão motive também um debate sobre a própria legislação eleitoral: numa dessas, o assunto faz com que se discuta, por exemplo, a possibilidade de permitir a participação de sindicatos e outras entidades correlatas como doadoras.

Enquanto isso, a disputa judicial pega fogo, a Câmara vive dias de choque e os vereadores se posicionam. Carlos Bezerra Júnior (PSDB), um dos cassados, divulgou em seu site uma nota oficial que explica muito bem sua postura frente ao caso.

A lista completa dos vereadores cassados pode ser encontrada aqui.

Atualizando: Três vereadores já tiveram a cassação suspensa e pode ser que mais gente também se beneficie (leia mais aqui). Talvez, como acontece com alguma frequência no Brasil, ninguém perca o mandato e as coisas fiquem como antes. E é por isso que, acredito eu, mais do que a cassação de um ou outro nome, o importante da história é levar o debate sobre as doações para uma posição de destaque.

Tirando a poeira

Amigos, pretendo atualizar mais esse blog. Peço desculpas aos eventuais leitores que sobraram pelo atraso.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Show da filiação

Recebi ontem, no meu email profissional, um aviso de pauta com o seguinte título: "Delegado federal Protógenes Queiroz anuncia sua filiação partidária".

Achei que fosse uma notícia relatando qual era a legenda escolhida pelo delegado. Não, era um convite para uma coletiva em que se dará o anúncio, a ser realizada no dia 2 de setembro. Até aí tudo bem: o problema é o simples fato de que não se fala qual é o partido que receberá Protógenes em suas fileiras.

Não sei qual a razão para que Protógenes só anuncie seu partido no dia 2 - indefinição a respeito não é, senão ele não convocaria a coletiva. Talvez a data seja a única possível para a organização do evento. E nada contra isso, também. Protógenes se tornou uma figura importante e nada melhor do que fazer uma boa cerimônia para sacaramentar sua entrada na vida política.

O que questiono é a espetacularização do ato. Protógenes anuncia que vai para um partido - e não diz qual. O revelará apenas em uma coletiva. Já até imagino um cartaz coberto por um pano, puxado em momento estratégico, com o logotipo da sigla agraciada despontando sob um "ooooh" de espanto coletivo. Ou mesmo um anúncio lento, sílaba por sílaba, para matar todos os ouvintes de angústia. "Protógenes vai para o.... o.... Pê...", e mais uns trinta segundos até a resposta, tal qual Pedro Bial anunciando o vencedor do Big Brother.

Não acompanhei com a atenção devida os desmandos da Satiagraha e não sei dizer se Protógenes é ou não um bom delegado, admito. Mas o que dá para dizer, sem medo de errar, é que sua carreira pós-"fama" está cada dia mais folclórica. Aos poucos, ele vai se tornando um sujeito a quem não se deve levar muito a sério. Esperemos.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Uma coisa é uma coisa, outra coisa...

Falar mal do Senado virou lugar-comum no Brasil nos últimos dias. Aliás, me corrijo; a coisa vem de tempos mais idos, com a já tradicional reprovação da opinião pública aos políticos como um todo e, falando mais especificamente da "Câmara Alta", com os demandos de Renan Calheiros que estiveram entre os assuntos mais comentados em 2007.

Corrupção e incompetência encabeçam as motivações para as queixas. E há uma que tem aparecido cada vez mais com maior frequência, e é a que eu gostaria de abordar agora. Falo da repulsa aos senadores suplentes, apelidados por aí de "senadores sem voto" e até mesmo de "senadores biônicos", numa temerária comparação aos políticos empossados na marra nos tempos de ditadura.

O ataque aos suplentes se motiva - e até mesmo se justifica - por lambanças cometidas pelos próprios suplentes. Wellington Salgado (PMDB-MG, na foto), que ocupa a vaga deixada pelo ministro Hélio Costa, ganhou fama por conta de seus longos cabelos e pela defesa de parlamentares tidos como indefensáveis. E agora é Paulo Duque (PMDB-RJ) - herdeiro de vaga deixada pelo governador fluminense Sérgio Cabral Filho - que recebe destaque, por presidir a malfadada Comissão de Ética do Senado.

Endosso os que fazem críticas à atuação de Salgado e Duque. Mas discordo, e com veemência, dos que contestam a legitimidade de ambos. Como assim, "senadores sem voto" ou "senadores biônicos"? Por acaso eles chegaram a seus cargos ao burlarem a lei ou coisa parecida? De modo algum. Estão lá de maneira legítima, tanto quanto os outros senadores.

Eles, inclusive, têm a mesma legitimidade que Gilberto Kassab tinha antes das eleições de 2008; ou, puxando um pouco na memória, que Itamar Francom tinha quando foi presidente. E tanto Kassab quanto Franco gozavam de popularidade e aprovação da população, vale o registro.

Talvez seja o caso de discutir se vale a pena manter a regra atual para a suplência. Dar a vaga ao senador "desistente" ao segundo colocado nas eleições seria uma medida extrema - certamente evitaria "evasões", mas, na minha avaliação, seria bem mais ilegítimo do que dar a vaga ao suplente. Afinal, o suplente está definido desde o período eleitoral - ou seja, o eleitor votou também nele, ao indicar o senador cabeça-de-chapa. Reitero que é a mesma situação dos vices.

Resumindo: a não ser que alguém apresente uma alternativa lógica, a figura dos suplentes é válida e continuará existindo - e gerará senadores tão legítimos quanto os outros, a despeito de suas trapalhadas.

Pensando em termos de marketing político, uma dica para os candidatos ao Senado seja explorar a figura dos suplentes adversários, aproveitando os grotescos exemplos do dia-a-dia.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O indecifrável "projeto Marina"

Ainda não sei como interpretar a ascensão do movimento Marina Silva Presidente. A ideia se propaga pela internet e, aparentemente, seus autores querem que ela seja interpretada como uma sugestão espontânea, um clamor autêntico das massas virtuais; mas manifestações públicas e abertas do Partido Verde a favor da proposta, além de declarações evasivas da própria senadora, podem sugerir que a mobilização não é tão autêntica assim.

De qualquer forma, não deixa de ser uma situação interessante. Em primeiro lugar, por acarretar a saída de mais um quadro histórico do PT - mais uma pessoa tradicionalmente ligada a uma causa, que ocupou um ministério relacionado a ela, que por desavenças deixou o governo e, posteriormente, o partido do presidente Lula, e até que acabou concorrendo à Presidência. Roteiro idêntico ao de Cristovam Buarque, o primeiro ministro da Educação do atual presidente. Marina, é bom lembrar, assumiu o Meio Ambiente logo no início do primeiro mandato de Lula e deixou o cargo em situação pouco harmônica.

É também o caso de se pensar como será o jogo eleitoral caso a candidatura de Marina pelo PV se confirme. Com ela, teríamos três mulheres com candidaturas a serem levadas a sério - as outras duas são Heloísa Helena (PSOL) e a favorita Dilma Rousseff (PT). Das três, arrisco dizer que Marina seria a que teria um discurso mais convicente, a de uma plataforma de campanha mais autêntica. Heloísa tende a repetir o discurso vago da "ética", sem propostas consistentes, e Dilma proporá a continuidade do governo Lula - o que é uma plataforma séria, mas, cá entre nós, pouco ousada e "pessoal".

Mas sabemos que o PV não tem condições - ao menos não hoje - de vencer uma eleição presidencial. Ao menos não com o quadro que se desenha. E acredito que nem uma aliança com outros partidos tiraria o favoritismo perene de PT e PSDB. Justamente por isso, Marina talvez não queira concorrer - disputar a presidência significaria abrir mão de uma reeleição quase certa ao Senado.

Resta saber se o PT apresentará alguma manifestação oficial ao caso. O partido não abrirá mão da candidatura de Dilma e não parece estar muito preocupado com a perda de Marina. O PV, enquanto isso, comemora.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O que é realmente "oficial"?

A comunidade flamenguista se animou na semana passada: corriam rumores de que a CBF, em seu site, havia reconhecido o Flamengo como o campeão brasileiro de 1987. (Explicando aos não muito interessados em futebol - mesmo após mais de 20 anos, o Brasileirão daquele ano ainda gera incertezas sobre quem foi seu real campeão. O Flamengo ganhou um campeonato promovido pelos clubes, enquanto o Sport venceu aquele que foi sacramentado como oficial pela CBF. Eu até tenho minha opinião sobre o assunto, mas não vou manifestá-la, ao menos não aqui, senão a conversa desanda de vez e o assunto do post, por incrível que pareça, não é futebol).

A notícia que motivou a euforia dos torcedores do Flamengo é essa: Morreu Zé Carlos, goleiro que brilhou no Flamengo e defendeu a Seleção Brasileira. Pois é, nada que mencione alguma decisão da entidade sobre a antiga contenda. Então como é que a notificação da morte de um ex-atleta gera tamanho furor? Pelo uso da seguinte frase, ainda presente no texto: "Zé Carlos disputou 352 jogos pelo Flamengo, clube pelo qual conquistou o título brasileiro em 1987".

Ou seja: uma frasezinha aparentemente inocente reacendeu todo o assunto e motivou conclusões pra lá de precipitadas. Há duas questões que ficam como "lição de moral" desse episódio.

A primeira vai para os produtores de conteúdo e responsáveis por sites institucionais (e eu me incluo nessa, já que trabalho em um site com esse perfil). Ter veículos institucionais de comunicação é uma prática já antiga e solidificada no cenário empresarial. Mas a transformação nas comunicações fez com que eles tenham abrangência e visibilidade jamais imaginada. Alguém aí já leu o jornalzinho interno da Phillips, da General Motors, da Esso? Não, certo? Mas em poucos cliques estamos diante do site dessas empresas - que é o principal canal de emissão da voz institucional da companhia.

Portanto, qualquer notícia colocada no site da CBF (e da da Phillips, da General Motors, da Esso, do Mercadinho do Seu Luís e por aí vai) é vista como sendo uma comunicação oficial da empresa, algo deliberado pela instituição, algo que representa o que aquela entidade verdadeiramente pensa. Por conta disso, cresce e muito a responsabilidade de quem faz esse conteúdo. Se apuração, clareza e qualidade são requisitos de qualquer texto jornalístico, nesse caso em especial deve-se somar aí um belo conhecimento - e engajamento - aos valores institucionais. Senão, a coisa desanda.

E o outro prisma da "lição de moral" do episódio vai para a imprensa e também para o público em geral. Justamente porque sabemos que esses cuidados nem sempre são tomados como deveriam, é preciso que essas "informações oficiais" sejam recebidas com mais cautela. Acredito que a CBF não tenha reconhecido o Flamengo como campeão de 1987, apesar do texto que estava (e ainda está) no site sugerir isso. Não é o caso, portanto, de se soltar fogos e celebrar uma mudança radical de posicionamento de uma instituição apenas por conta de algo sugerido em um texto publicado em seu site.

Mais que isso, o que se deve pensar nesses casos é que o trabalho institucional não é feito com a qualidade que merecia.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Deixemos a fé pro que é de fé

Tempos atrás, eu estava assistindo Jô Soares, coisa que raramente faço. Um dos entrevistados do dia era um ufólogo. Em uma das suas primeiras falas, o cidadão (cujo nome infelizmente não lembro) deixou claro que, na avaliação dele, falar de discos voadores é algo que não pode ficar no campo das crenças. "Me perguntam se eu 'acredito' em discos voadores. Respondo que não é algo de 'acreditar', de 'ter fé', e sim de saber se o negócio existe ou não", disse, em linhas gerais, o pesquisador.

Toda essa introdução é para falar de um dos assuntos que mais recebeu destaque no noticiário internacional dos últimos dias, o vídeo que - supostamente - mostra líderes das Farc declarando que a entidade guerrilheira doou dinheiro para a vitoriosa campanha de Rafael Correa à presidência do Equador, em 2006.

O escândalo se detonou e começaram as gritas de tudo quanto é lado. Os direitistas estufam o peito pra dizer "é isso mesmo, eu já sabia, esse povo tá tudo mancomunado, tem dedo do Hugo Chávez aí" e por aí vai. Já o pessoal da esquerda retruca com coisas como "que nada, isso é manipulação, não tem nada a ver, as Farc não fazem parte do Foro de S. Paulo", e et cetera.

Ora, eu recorro à filosofia do já citado ufólogo pra emitir minha opinião. Ou o vídeo é verdadeiro ou não é. Não há meio-termo. Se for verdadeiro, houve efetivamente a doação de dinheiro das Farc para a campanha no Equador. Eu não conheço a legislação equatoriana, mas duvido que seja muito diferente da brasileira - aqui, é proibido que campanhas eleitorais recebam verbas do exterior, seja de quem for. Ou seja: ainda que as Farc fossem um lar de franciscanos, não poderiam contribuir financeiramente no processo eleitoral. Caso o Equador siga normas similares às brasileiras, a eleição de Correa se torna irregular (repetindo, no caso do vídeo ser verdadeiro) e, se a sanção para isso for a destituição do presidente do cargo, que assim seja.

Agora, se o vídeo é falso, trata-se de uma bela de uma armação. Uma tentativa clara de dar descrédito a um governo eleito democraticamente. Que as entidades - colombianas, equatorianas, ou até mesmo as duas - façam a sua parte e encontrem quem fomentou esse comprometedor boato.

É mais simples do que parece - e, assim como na questão dos OVNI's, não é o caso de ficar acreditando em uma hipótese ou em outra.

O vídeo, para quem ainda não viu, vai abaixo.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

É positivo

Você conhece Emidio de Souza? A não ser que você seja da região de Osasco ou um ávido devorador do noticiário político, muito provavelmente sua resposta será "não". Então é bom que se acostume a esse nome: Emidio, cada vez mais, é um forte pré-candidato do PT ao governo do estado.

Emidio é prefeito de Osasco - eleito em 2004, reeleito em 2008 - e, antes disso, foi deputado estadual e vereador. Tem sido colocado na lista dos pré-candidatos do PT e uma série de conjecturas tem feito com que seu desconhecido nome ganhe força.

O primeiro e mais importante motivo é a falta de nomes petistas para o projeto. É só lembrar o que aconteceu na eleição passada. Um ano (2005) antes do pleito, falava-se de três possíveis candidatos do PT: o deputado João Paulo Cunha, a ex-prefeita Marta Suplicy e o senador Aloizio Mercadante. Mercadante acabou candidato e levou surra histórica de José Serra, que venceu no primeiro turno.

Peguemos esses três nomes e o analisemos no contexto atual. João Paulo Cunha, ainda em 2005, foi envolvido no escândalo do mensalão e o máximo que pode almejar hoje é o posto de deputado federal que mantém. Marta Suplicy saiu muito fragilizada após a derrota no pleito de 2008 da capital e é praticamente impossível que vença alguma eleição majoritária em São Paulo. Já Mercadante até que tem sua força, mas é mais negócio destiná-la ao Senado - ele tentará, ano que vem, renovar o mandato que obteve após as eleições de 2002.

Então o fato é que o PT não renovou seus quadros. Inlcusive, o nome que ainda está na frente de Emidio é o do deputado Antonio Palocci, que tem prestígio e força eleitoral, mas que sofreu um belo arranhão na sua imagem com o "escândalo do caseiro".

Arrisco um palpite: Emidio só deixará de ser candidato caso o PT abra mão de sua candidatura majoritária e embarque na aventura Ciro Gomes ou, como se cogita, a uma aliança com o PDT para a candidatura do prefeito de Campinas, Dr. Hélio.

Digo isso porque, até segunda ordem, a eleição para o governo do estado está nas mãos do PSDB, e seria suicida, da parte do PT, queimar Antonio Palocci e impedi-lo de buscar uma relativamente fácil reeleição ao mandato de deputado. Enquanto isso, Emidio é prefeito de Osasco e continuará ainda que dê vexame nas eleições do ano que vem. Ou seja: tem muito a menos que perder do que o ribeirão-pretano.

Acho que seria saudável ao PT o lançamento de Emidio. Assim, o partido se reoxigenaria, exporia um novo quadro para a opinião pública e deixaria claro que não é um partido composto somente pelos seus caciques. Entrevistei Emidio umas três vezes quando trabalhava no Visão Oeste e posso dizer que é um cara centrado, trabalhador, que não tem jeito de quem irá se deslumbrar com a grande responsabilidade que carregará. Sem dúvida, vai somar ao debate político do estado.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Reflexões sobre uma cassação

Na madrugada de hoje, o Tribunal Superior Eleitoral cassou o mandato de Marcelo Miranda (foto), governador de Tocantins. A medida se deu por conta de "abuso de poder político" durante as eleições de 2006.

Há três coisas a se analisar em relação a essa notícia. E nenhuma a respeito da cassação em si, se foi correta ou não, até porque para opinar quanto a isso eu precisaria estar mais inteirado no processo, o que é o caso.

Primeiro ponto: como é que só agora, na metade de 2009, é que o TSE consegue se pronunciar sobre algo que ocorreu em 2006? As eleições foram naquele ano, o ato em questão se concluiu ali, então por que o assunto permaneceu indefinido até agora? E o pior: Miranda ainda permanecerá no cargo até que forem esgotados todos os recursos. Ou seja: daqui a alguns meses, o ano vira, começa o eleitoral 2010 e é capaz da cassação anunciada aos quatro cantos não ter nenhum efeito. Falho em termos de punição é inadmissível se pensarmos que um estado precisa saber se tem, pra valer, um governador ou não.

Segundo ponto: as acusações que pairam sobre Miranda se referem a doações de óculos e terrenos a moradores do estado. Ele alega que, enquanto governador (foi reeleito em 2006), não poderia deixar de trabalhar "apenas" por estar disputando uma eleição. Complicado, não? Repito que não conheço a fundo o caso do Tocantins, mas taí uma questão que o Brasil ainda não conseguiu definir - o que é atribuição do gestor em exercício e o que é "medida eleitoreira". Será que a reeleição realmente cabe por aqui? Ou será que mídia e tribunais exageram ao ver ações supostamente eleitoreiras em trabalhos da rotina de um governo?

Terceiro ponto: esse é mais uma crítica aos jornalistas do que ao processo da cassação propriamente dito. Já vi por aí gente falando que a cassação de Miranda é um "desrespeito à vontade do povo de Tocantins" - assim como o que foi dito quando Jackson Lago (Maranhão) e Cássio Cunha Lima (Paraíba) perderam seus mandatos, e é o que sempre se fala quando um governante é sacado do poder. Tal argumentação é das mais frouxas. Ora, não existe a manifestação correta da "vontade do povo" se as regras de uma eleição são desrespeitadas. Quando uma eleição é falha (repito que não sei se esse é o caso do Tocantins), ela não pode ser interpretada como a verdadeira manifestação dos cidadãos. Simples. Então, se o caso do Tocantins for realmente esse, que se desconsidere a eleição em questão, e que o povo seja ouvido em um pleito justo.

Aliás, nesse último quesito, cabe um paralelo ao mundo do futebol. Há times que disputam campeonatos e acabam rebaixados por terem perdido pontos, punição que receberam por terem escalado irregularmente alguns jogadores. Logo vem a voz dos "justos": "isso é um absurdo, o time ganhou dentro de campo e fora tiraram os pontos, isso é uma imoralidade!". Imoralidade é ignorar uma regra. Se o time está numa competição, tem que seguir os princípios dela - o que inclui estar sujeito a punições caso pise na bola. Neste caso, não cabe o chororô nem a repetição de chavões contra as "viradas de mesa".

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Mudanças fracas, mas melhor que nada

Ontem, deputados se acertaram e anunciaram o que - até agora - será modificado na legislação eleitoral no que se refere ao uso da internet nas campanhas. Um resumo está no blog do Fernando Rodrigues.

Endosso as críticas que o blogueiro do UOL faz às modificações. São mais tímidas do que o que se esperava e também deixam claro que o governo sugere o "não pode nada" simplesmente por não ter condições de fazer uma fiscalização mais correta, mais precisa. E ainda trazem bizarrices como a proibição a candidatos que queiram comprar espaços publicitários em páginas da internet. Ora, qual é - ou qual seria - a diferença de comprar meia página na Folha e um banner no Terra?

Por outro lado, celebro a autorização que a lei dá às doações de pessoas físicas pela internet. Principalmente porque permitirá que o procedimento seja feito de maneira incrivelmente simples, com o interessado fazendo suas contribuições com cartão de crédito ou débito. Como já falei outras vezes, permitir - e incentivar - doações individuais é algo que colabora e muito para a transparência do processo eleitoral e também para que o sentimento de participação seja ampliado. É uma forcinha pra democracia, portanto.

Claro que a cultura do Brasil ainda não contém esse tipo de procedimento. Em épocas de descrença geral na política, quem que tá a fim de dar parte do seu suado salário a um candidato? Mas não é nada que não possa ser mudado com um trabalho bem feito.

Tenho curiosidade de saber como será a postura dos partidos quanto a isso, e se eles realmente estão dando valor à essa possibilidade, ou se preferem as arrecadações pelo sistema antigo.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O conceito de GOTV se aplicaria no Brasil?

Textos sobre campanhas políticas dos EUA - como os da Politics Magazine, que assino - sempre mencionam a relevância de um tal "GOTV" no processo eleitoral.

O termo não me parecia claro e admito que o "TV" que compõe a palavra me fazia pensar que se tratava de uma questão técnica, algo como transmissão de imagens, nessa linha. Mas nada que a internet e a Wikipedia não resolvam: descobri que GOTV é abreviação para Get Out The Vote; numa tradução literal, algo como "arrancar o voto".

Nos EUA, o GOTV é feito majoritariamente por instituições não diretamente ligadas a partidos políticos. São grupos que defendem causas como direitos da minorias, aumento da participação política de jovens e imigrantes, entre outros temas. O Rock The Vote, que ficou famoso com o triunfo de Obama no ano passado, é o mais conhecido.

A chave para que esses grupos tenham tamanha relevância no processo eleitoral de lá é o voto não-obrigatório. Afinal, com a participação nas urnas sendo voluntária, é preciso que os agentes da campanha política se preocupem em fazer com que os eleitores se preocupem, em primeiro lugar, em ir até as urnas; posteriormente, em um segundo momento, é que chega a hora de tentar fazer com que a pessoa vote em determinado candidato.

Por essa ótica, talvez seja impossível pensar no GOTV sendo aplicado no Brasil. Porque aqui todo mundo tem que votar, querendo ou não. Mas será mesmo que é o caso de descartarmos em definitivo a ideia?

Eu acredito que não, e explicarei meu ponto de vista. Talvez, para as eleições majoritárias, em que há menos de uma dezena de candidatos e o nome de dois ou três cidadãos manipula o debate eleitoral, realmente não faça sentido.

Mas para as proporcionais, dá pra pensar em GOTV sim. Com a seguinte linha de trabalho: o GOTV, aqui, poderia ser aplicado no sentido de fazer com que eleitores de determinada causa se concentrassem em determinados candidatos, que fossem condizentes com suas propostas. Por exemplo: uma entidade ligada à questão dos deficientes aplicaria o GOTV para que seus simpatizantes se sentissem compelidos a votar - e também a arrancar votos - em um candidato que se encaixasse em sua proposta. Nesse caso, o "get out the vote" se aplicaria no sentido da mobilização que a expressão sugere, e não necessariamente no comparecer ou não às urnas.

No fim das contas, cabe ao GOTV a mesma ótica de outras técnicas de campanha aplicadas nos Estados Unidos: todas são muito válidas, desde que bem estudadas e condicionadas às realidades locais.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Congresso tenta reagir

Na manhã de hoje, o Congresso Nacional lançou a campanha "O Congresso faz parte da sua história". A iniciativa, capitaneada de maneira conjunta por Câmara e Senado, tem como objetivo tentar algo praticamente impossível: melhorar a imagem do Congresso junto à opinião pública.

A linha-mestra da campanha será mostrar aos brasileiros que realizações do Congresso estão presentes no dia-a-dia dos cidadãos. Para isso, as peças mostrarão depoimentos de pessoas beneficiadas por medidas como Lei Maria da Penha, Código Nacional de Trânsito, Código de Defesa do Consumidor e outros.

Numa breve analisada, dá pra dizer que, tecnicamente falando, o trabalho está bem feito. As peças estão bonitas, a mensagem é adequada e, por que não dizer, a causa é nobre. Mas acontece que não há campanha publicitária que consiga reverter milagres. Se a imagem do Congresso vai de mal a pior, não há ninguém mais responsável por isso do que os próprios parlamentares.

O presidente do Senado José Sarney (PMDB-AP), em discurso realizado ontem, falou que há "perseguição" por parte dos grupos de mídia que querem "roubar" dos parlamentares seu legítimo posto de defensores do povo. Peraí, Sarney. Quando a mídia elenca denúncias sobre a gestão pública - e no caso em que as denúncias em questão são procedentes, bem apuradas, e etc - não há nada de confronto deliberado nem nada desse tipo. Claro, é indiscutível, que existe uma série de exageros por parte da mídia (e isso inclui desde os famigerados grandes grupos até a tal "mídia independente"), mas, via de regra, o que é falado por aí procede sim.

Utopicamente, anseio por outro efeito da campanha: que ela mostre para o cidadão o quanto o Congresso realmente é importante, e que isso faça com que os populares em geral se interessem em fazer com que as coisas mudem - e se interessem de verdade, não somente espalhando emails nem entrando me comunidades no Orkut.

Veja abaixo um dos vídeos da campanha. No site oficial tem mais coisa.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Internet nas campanhas eleitorais

O site IDG Now! traz hoje uma interessante entrevista com a deputada Manuela D'Ávila (PCdoB-RS). Na pauta, o uso da internet nas campanhas eleitorais.

O assunto tem aparecido com mais frequência no noticiário desde o início do mês, quando o também comunista Flávio Dino (MA) apresentou projeto para a liberação da internet nas campanhas. “Sem internet é impossível fazer campanha. A internet é uma praça virtual da pós-modernidade. Não há sentido a legislação continuar neste obscurantismo”, disse Dino ao G1, ao explicar o seu projeto.

Acho que é consenso o fato de que precisa-se ampliar o uso da internet nas campanhas eleitorais brasileiras. O problema - e é aí que mora a aprovação ou não do tema - é a regulamentação da rede. A internet, feliz ou infelizmente, é vista como terra de ninguém e desprovida de um controle oficial. Conciliar isso com o corretamente rígido sistema eleitoral brasileiro, e suas regras bem ditadas para as campanhas, é um problema.

Mas acredito que o posicionamento mais danoso que o Brasil poderia adotar quanto a isso é simplesmente o virar as costas e admitir sua incompetência para gerenciar a questão. Acho - e aí é um palpite de quem está de fora, mas não é tão absurdo assim - que as experiências de outros países estão aí para serem aprendidas. O caso de Obama nos EUA é o mais emblemático. Além dele, certamente em outras nações há um bom mecanismo para uso e controle da internet nas campanhas eleitorais. Por que não estudar o que está dando certo fora e aplicar para a nossa realidade?

Em tempo: a bancada do PCdoB precisa se afinar quanto a esse tema. No podcast citado acima, Manuela D'Ávila cita, além da propaganda, a intenção de estimular a arrecadação de recursos pela internet; já Flávio Dino foi autor de proposta que sugeriu o financiamento público das campanhas. Como já disse aqui anteriormente, fico com a proposta da gaúcha: a arrecadação pela internet, além de transparente, é um baita estímulo para que os cidadãos se sintam mais interessados em participar do processo eleitoral como um todo.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Ciro governador de São Paulo: um plano mirabolante

A Folha traz hoje uma notícia que já vem circulando nos últimos dias e que, aparentemente, tem ganhado força: a possibilidade de Ciro Gomes, deputado federal pelo PSB do Ceará, ser candidato a governador de São Paulo nas eleições do ano que vem. A medida, segundo a Folha, serviria para unir o bloco governista em São Paulo - ainda que isso representasse uma não-candidatura do PT - e, de quebra, fazer com que o PSDB não tivesse vida tão fácil assim na tentativa de fazer o sucessor de José Serra.

A hipótese é bem curiosa, e pode ser analisada de diferentes pontos de vista. A eles:

- PT: ter que abrir mão de disputar o governo do maior estado do Brasil - e berço do partido - seria um belo tapa na cara do PT. O partido ficou fragilizado em São Paulo após agressivas derrotas nas últimas eleições. Em 2002, mesmo com Lula tendo sido eleito presidente, Genoino fez apenas figuração no segundo turno contra Geraldo Alckmin; em 2004, Marta Suplicy não conseguiu ser reeleita prefeita da capital; em 2006, Lula perdeu para Alckmin em São Paulo na disputa presidencial e, na corrida ao governo, Serra venceu no primeiro turno; e em 2008, Marta teve uma candidatura decadente e, no segundo turno, mal ofereceu resistência a Gilberto Kassab na disputa pela prefeitura paulistana. Nomes que, anos atrás, figurariam como candidatos naturais do PT passam por fragilidades eleitorais ou foram vítimas de escândalos, como a própria Marta Suplicy e também José Genoino, Antonio Palocci, João Paulo Cunha e outros. Sem esquecer de Paulo Skaf, presidente da Fiesp e que aparecia como possível nome do PSB na disputa pelo governo, mas cujo nome foi sensivelmente debilitado após a deflagração da operação Castelo de Areia da Polícia Federal.

Por outro lado, o PT, talvez já sabendo que não tenha condições de incomodar a supremacia tucana em São Paulo, acabe por agir de maneira inteligente por não investir em uma briga já perdida. Mas não deixa de ser irônica a situação.

- Eleição presidencial: há quem diga que a indicação de Ciro para a disputa do governo paulista seria uma tática do PT para tirá-lo da corrida à Presidência da República. Não vejo sentido nisso. Afinal, uma possível candidatura Ciro só teria força se ela fosse a oficial do governo (o que não ocorrerá, a não ser que a saúde de Dilma Rousseff piore consideravelmente) ou da oposição - outra possibilidade impossível. Fora disso, o Brasil já dá mostras que, para 2010, irá repetir a polarização PT-PSDB que tem vivenciado nas disputas presidenciais desde 1994. Não há sentido em crer que uma candidatura de outra sigla seria incômoda o suficiente para que o PT pense em manobras para realocá-la. Mas é saudável ver o PT se dispondo em abrir mão de uma candidatura majoritária para fortalecer sua base. O partido sempre foi acusado de centralizador, talvez assim sinalize positivamente que está mais apto ao diálogo.

- Sucesso eleitoral?: até segunda ordem, o governador que sentará na cadeira principal do Palácio dos Bandeirantes em 2011 será um tucano. É bem difícil imaginar que o PSDB perca a supremacia que mantém desde 1994 no estado. Aliás, a maior ameaça para o partido hoje, ao meu ver, não está em seus opositores clássicos, e sim no DEM, mais precisamente na figura de Gilberto Kassab (eu apostaria em um ótimo desempenho de Kassab se ele se aventurasse a disputar o governo estadual). O PT está fraco, pelos motivos citados acima, e não há outra corrente com força suficiente para entrar no jogo.

Além disso, gostaria de saber como o paulista reagiria à candidatura de um "forasteiro" nas eleições estaduais. Veja bem que não se trata de uma questão "xenófoba" ou coisa parecida - afinal, se pensarmos de maneira legalista, Ciro é paulista, já que nasceu em Pindamonhangaba, a mesma cidade de Geraldo Alckmin. Mas ele pertence à política do Ceará e sua chegada à São Paulo teria tudo para ser interpretada pelo eleitor como um oportunismo dos mais descarados. Não é a mesma situação, por exemplo, de Luiza Erundina, nordestina de nascimento mas radicada em São Paulo e vivente da política do estado. Em gente com essas características o paulista vota e sem problemas. Questiono é a reação a quem chega ao estado unicamente para a disputa de uma eleição.

Se bem que depois da aprovação aos planos eleitorais de José Serra - que disputou e venceu a prefeitura da capital em 2004 nitidamente para ganhar tempo para 2006, quando foi eleito governador em primeiro turno -, talvez não seja mais o caso de bancar a "consciência eleitoral" do paulista.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A culpa é nossa

Longa vida à democracia e à liberdade de opinião. Vida curta, curtíssima, à pouca informação e, principalmente, aos conceitos errôneos que se originam por causa dela.

Há poucos conceitos aos quais a situação se aplica tanto quanto aos famigerados Diretos Humanos.

Certamente o leitor já ouviu alguém maldizer os direitos humanos por aí. "Esse povo dos direitos humanos fica tomando conta de bandido, enquanto isso o cidadão de bem sofre"... não é assim? Isso quando não aparecem outros raciocínios do tipo "vai todo mundo tomar conta do bandido e ninguém se preocupa com a vítima...".

E é aí que entra a frase que abre o post. Se uma pessoa acha que "bandido tem tudo que morrer" (ou "bandido bom é bandido morto, na frase clássica"), até vá lá. É uma opinião - da qual discordo, que fique claro - mas não deixa de ser uma opinião. E a sociedade democrática tá aí para que ouçamos opiniões e interajamos com ela de acordo com o necessário.

O preocupante, nesse caso, é colocar os coitados dos direitos humanos como responsáveis pela "proteção ao bandido", de acordo com esse senso.

Tal raciocínio veio à tona ontem, quando a Anistia Internacional soltou um relatório sobre os direitos humanos em todo o planeta. Na parte relacionada ao Brasil, o analista da ONG foi direto ao ponto: "existe um conceito infeliz no Brasil que é que os direitos humanos só defendem bandidos".

Tim Cahill, o responsável por assuntos brasileiros da Anistia, foi além: o conceito de que só "bandidos" são beneficiados "é popularizado e utilizado por pessoas que têm interesse em mantê-lo", de acordo com reportagem do UOL.

Não entrarei nesse mérito. Não sei se tem gente que ganha com isso, nem cabe a mim julgar. Mas que já passou da hora desse conceito ser revertido, isso é verdade. E ninguém melhor pra dar esse passo inicial do que a mídia. Que tal falar que moradia, emprego, saneamento, alimentação - para bandidos e "cidadãos de bem" - são direitos humanos? Que tal ensinar isso na escola, que tal propagar a ideia de que os direitos humanos são algo que, na prática, todo mundo concorda?

Inclusive, a liberdade que um sujeito tem de falar que "bandido tem tudo que morrer" também está inclusa nos direitos humanos, só pra deixar claro...

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Reforma? Deixa pra lá

Esqueçam o dito há pouco tempo nesse blog sobre a reforma política brasileira. Noticiário que circula hoje - tendo como principal referência o Blog do Josias - diz que líderes de quatro partidos que inicialmente aderiram ao projeto, PP, PTB, PSB e PR, resolveram voltar atrás e disseram que farão o possível para que os dois principais projetos da reforma, a lista fechada e o financiamento público, não avancem.

Em nome de uma suposta unidade da base, visando 2010, PT e PMDB aceitaram e decidiram também deixar de lado a proposta.

Como eu falei anteriormente, não via com bons olhos a reforma (nesses termos que foram apresentados). Acredito que a lista fechada permitirá uma "caciquização" dos partidos e o financiamento público inibirá a participação individual e não será tão eficaz assim para acabar com os lobbies. Mas, por outro lado, acho complicado ver que uma proposta que no mínimo traria discussão de alto nível foi derrubada por conveniências eleitorais.

Eleição única
Falando em eleições, o deputado Sandro Mabel (PR-GO) apresentou hoje um projeto curioso, como informa a Agência Brasil: a prorrogação de todos
os mandatos vigentes até 2012, para que assim o Brasil tenha uma única temporada eleitoral.

Mabel justifica sua medida com base nos altos custos que uma eleição representa. De fato, não é pouca grana. Há outra questão, porém, que eu considero primordial: com uma única temporada eleitoral, os governantes teriam mais solidez para trabalhar e não teriam que, ano sim, ano não, ficar com aquela pecha do "é ano de eleição". 

Por outro lado, nem dá para a gente se animar muito: na mesma matéria da Agência Brasil está fala de Ricardo Barros (PP-PR), que praticamente enterra a ideia. “Não vejo consenso sobre isso e acho que isso não vai ser aprovado”, falou o deputado.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Vitória de Kassab: triunfo do “agendamento”

Ontem, fui à Universidade Anhembi-Morumbi, na Zona Sul de São Paulo, para assistir a um evento dos mais interessantes: a apresentação das estratégias de assessoria de imprensa que a agência Fator F usou durante a campanha de Gilberto Kassab nas eleições municipais do ano passado. A apresentação foi conduzida pelos diretores da Fator F Roger Ferreira e Emerson Figueiredo.


Contextualizando: Kassab começou a corrida eleitoral com dois referenciais muito fortes sobre si, um positivo e um negativo. O positivo era o de ser o então prefeito da cidade; e o negativo era ser um nome desconhecido de grande parte do eleitorado, já que ele assumiu a chefia do executivo quando o titular do cargo, José Serra, iniciou sua bem-sucedida trajetória ao governo do estado.

Com base nessas realidades, a meta desenhada pela equipe de comunicação era pautar a mídia. A necessidade disso se explicava pela situação eleitoral: Kassab tinha como principais adversários Marta Suplicy e Geraldo Alckmin, dois peso-pesadíssimos da política paulista. Se não fosse feito um trabalho consistente com a mídia, Kassab sumiria do dia-a-dia da cobertura eleitoral. Capas de jornais e destaques de internet iriam para tudo o que fosse relacionado a Marta e Alckmin, e a candidatura Kassab seria relegada aos rodapés das páginas, junto com as dos nanicos.

Para pautar a imprensa, a assessoria da campanha se baseou em dois argumentos: o primeiro era o fato de Kassab ser o atual prefeito da cidade, e por isso ter consigo uma necessidade latente de cobertura midiática (afinal, com eleição ou não, a cidade precisa saber o que o seu prefeito está sabendo). A outra era a boa costura política que trouxe o PMDB à candidatura de Kassab e com isso deu à campanha tempo de horário eleitoral superior aos candidatos. Além de tudo, era um prefeito que tinha uma boa avaliação e se baseava em bandeiras como a Lei Cidade Limpa, referendada pela maioria dos paulistanos.

De posse desses argumentos, os assessores “martelavam” com os jornalistas o fato de que o candidato Kassab não poderia ser desprezado. Dia-a-dia, os profissionais se esforçaram para imprimir a mensagem que dizia que o candidato “intruso”, a ser ignorado, era Geraldo Alckmin, e não Gilberto Kassab; afinal, todas as campanhas políticas (ao menos boa parte delas) se baseia no duelo situação versus oposição. E quem pode representar melhor a situação do que o próprio prefeito?

Tal tática não tomou corpo com ataques à candidatura de Alckmin. Pelo contrário: mais do que tentar derrubar o tucano, a principal meta era ignorá-lo. Deixá-lo de fora da disputa. O que a campanha buscava era uma polarização com a candidatura de Marta Suplicy – assim, fortaleceria o já citado debate situação x oposição e jogaria a disputa eleitoral para um julgamento da qualidade da administração vigente, acima de qualquer coisa.

Os ataques à candidatura Marta se basearam nos “25 desafios”, série de perguntas que Kassab lançava aos jornalistas cujo mote era promover uma comparação entre sua gestão e a da petista (mais uma vez, focando o debate na aprovação do governo, baseado nos bons números que vinham das pesquisas). Ao enfatizar esses ataques, a campanha acabou por despertar reações adversas da candidatura do PT, que também passou a atacar Kassab – que era o que a campanha do prefeito mais desejava, por trazer a ele os holofotes. Enquanto isso, Geraldo Alckmin era deixado de lado.

Também foi abordada na apresentação a questão de José Serra, que, embora institucionalmente estivesse ao lado de Geraldo Alckmin, sempre desejou uma vitória de Kassab. Roger Ferreira e Emerson Figueiredo enfatizaram que, claro, não se pode desprezar o peso de um governador numa corrida; mas afirmaram que a relevância de Serra na campanha se deu mais por questões políticas do que puramente eleitorais. O paulistano não votou em Kassab por ele ter o apoio de Serra. Votou porque estava satisfeito com a sua gestão, e desejava a continuidade desse trabalho.

Em resumo, a vitória de Kassab, em termos de assessoria de imprensa (claro que eleição se vence ou se perde por inúmeros fatores, os apresentadores não sugeriram que essa é a única explicação para a vitória), se deveu pelo sucesso do agendamento que a campanha do prefeito conseguiu. Mais do que destacar qualidades ou realizações do prefeito, a ambição da equipe era fazer com que Kassab se tornasse pauta, se tornasse visível – em suma, estivesse inserido na agenda da disputa eleitoral paulistana. Com isso, era a vez da boa aprovação do governo se converter em votos (o que historicamente acontece) e administrar as questões do dia-a-dia.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Marca, um emblema derradeiro

O escândalo da vez do Congresso está na disputa pela relatoria do processo de cassação do deputado Edmar Moreira (sem partido-MG). O cargo pertencia a Sérgio Moraes (PTB-RS), que lutou o quanto pôde para mantê-lo; agora, a vaga está com Nazareno Fonteles (PT-PI), mas Moraes pretende acionar até o Supremo Tribunal Federal para que ele não perca a condição.

Seria - e é - apenas mais um bate-boca rotineiro da Câmara dos Deputados. Mas ele explica algumas coisas, elementos que não podem deixar de ser analisados quando vimos como a opinião pública se porta em relação às questões da política.

Em primeiro lugar, analisemos quem é o deputado que originou toda a crise. É o mineiro Edmar Moreira. Pergunte para seu vizinho, para o porteiro do prédio, para um colega de escola, se ele sabe quem é Edmar Moreira. Muito provavelmente, a resposta será negativa. Agora, inverta o questionamento - indague-o sobre o deputado do castelo. Não tenha dúvidas: seu interlocutor saberá de quem se trata.

Edmar Moreira virou "celebridade" por causa do castelo que possui em Minas Gerais e não declarou à Receita Federal. É por isso que está sendo investigado pela Câmara, certo? Errado! O processo que corre contra ele se baseia no mau uso que ele faz da famigerada verba indenizatória - Moreira é dono de uma empresa de segurança e, segundo a denúncia, destinava a essa empresa parte do orçamento de que dispunha.

Acontece que é o castelo que entrou para a história. É essa a imagem que entrou para o dia-a-dia da opinião pública, é isso que aparecerá nas retrospectivas de 2009. O caso nos faz lembrar do ocorrido em 2001 (ou 2002? Se alguém precisar a data, agradeço), quando Roseana Sarney despontava como uma das favoritas para a eleição presidencial mas viu seus planos irem por água abaixo quando uma montanha de dólares irregulares foi apreendida pela Polícia Federal. Ou seja: já havia outras histórias cabeludas por trás dela, mas foi só com a imagem que seu prestígio - e sua candidatura - tiveram um golpe derradeiro>

O outro aspecto a ser destacado não se refere a Edmar Moreira, e sim ao outro sujeito do escândalo atual, Sérgio Moraes. Este entrou para o cotidiano do noticiário (alguém de fora do RS já tinha ouvido falar dele? Eu admito que não) não exatamente pela estranha postura de defender Edmar Moreira, e sim por dizer que estava "se lixando" para a opinião pública.

Ao falar essa expressão, Moraes, mais do que "desrespeitar" a tal da opinião pública, fez algo muito pior para sua carreira: aliou sua personalidade a um bordão, a uma gag que poderá ser repetida por seus adversários sempre que possível. Não importa o que fizer daqui por diante: Moraes sempre será o cara que "se lixa" para a opinião pública.

Lembro de post que escrevi esses dias, sobre Lula e a marolinha. O presidente fez bobagem ao menosprezar a crise, mas bobagem ainda maior a dar à sua opinião uma frase depreciativa que acabou por servir de munição para seus adversários.

Mais um exemplo? Vamos lá. Em 2005, Roberto Jefferson foi à mídia para denunciar um suposto esquema para compra de congressistas. A denúncia fez barulho, acabou por derrubar muita gente do governo e dificultar a reeleição de Lula. Pergunto: será que teria esse mesmo impacto se Jefferson, bom de mídia que é, não tivesse dado a ela o sonoro, marcante e eficaz nome de "mensalão"?

Moral da história: é preciso ter um baita cuidado com as marcas. As que se cria e as que se recebe.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A controversa reforma política avança

A Folha e outros tantos lugares noticiaram: Governo e grandes partidos articulam reforma política.

O projeto, que tramita pelo Congresso com relativas chances de ser aprovado, altera de maneira significativa as eleições no Brasil, em especial as proporcionais. Em suma, ele determina o financiamento público exclusivo de campanhas e o voto em lista fechada.

As duas medidas têm recebido aprovação por aí. Sobre o financiamento, o que se alega é que a questão inibe a corrupção e um vínculo maléfico que o político teria com quem pôs dinheiro em sua campanha. Já quanto à lista fechada, o que se tem dito é que esse sistema favorece a presença de minorias na composição dos parlamentos.

Admito que não sou especialista em nenhum dos dois temas. Portanto, as críticas que seguem abaixo poderão ser facilmente mudadas caso apareçam informações que levem a um sentido oposto. Mas, em um primeiro lugar, acho que as duas reformas não trarão benefícios.

Em primeiro lugar, sobre o financiamento público. Acredito que um dos primeiros efeitos da proposta será gerar um coro de indignação da população em direção à classe política. Se o cidadão comum já repudia o pagamento de impostos, ainda que eles se convertam em benefícios concretos, que dirá custear as campanhas! Sim, hoje em dia há o Fundo Partidário, mantido com recursos governamentais - e, portanto, meus, seus, e de todo mundo. Mas sua participação no financiamento das campanhas não é tão decisivo quanto será o sistema que virá com a nova proposta.

E acredito também que impedir a população, por meio de pessoas físicas e jurídicas, de contribuir com uma campanha eleitoral é um retrocesso dos mais fortes. No ano passado, Barack Obama foi eleito presidente do EUA com uma campanha que se baseou nas doações individuais, de cidadãos que contribuíam com quantias inferiores a US$ 200. É um consenso entre os especialistas que a participação popular é algo que fomenta a democracia. E agora o projeto quer vetar essa iniciativa, resumindo as doações individuais a transferências a um obscuro "caixa partidário"?

Além do mais, não é esse tipo de coisa que irá inibir a corrupção. O caixa 2 tem diminuído significativamente, é verdade, mas jamais desaparecerá das eleições brasileiras (e, acredito, de todo o mundo). 

Quanto à lista, acho que ela não se aplica a um sistema partidário como o nosso em que as siglas são meros instrumentos para a chegada ao poder. Esse sistema somente fará com que caciques dos partidos permaneçam com seus status de privilégio. Além disso, é totalmente desinteressante ao eleitor médio, que vota em indivíduos, e não em partidos e ideologias.

Aguardemos para ver como ficará a proposta. E qual a opinião de vocês?

quinta-feira, 30 de abril de 2009

"Persistir no erro..."

Em janeiro, fiz o post Onde está a colher?. Falei sobre uma "curiosidade" que dois textos do site oficial de São Bernardo tinham: ambos falavam sobre realizações da prefeitura, traziam declarações do prefeito e... simplesmente não mencionavam o nome do prefeito. O leitor poderia saber o que o prefeito fazia ou deixava de fazer - mas não conseguia saber o nome do sujeito.

E aí hoje resolvi ver o site da prefeitura de São Bernardo (que fazia tempo que não acessava). Em destaque, uma matéria sobre os 100 dias da nova gestão municipal. Texto longo, que descreve tudo o que a prefeitura fez nesses pouco mais de três meses, expõe os projetos que virão e - acreditem! - assim como os anteriores, não tem o nome do prefeito!

Tá certo que para quem trabalha em uma prefeitura o nome do prefeito é algo óbvio. E certamente foi esse "piloto automático" que fez com que o nome do prefeito acabasse por ser esquecido. Mas quem faz os textos - e também quem os revisa - precisa lembrar que há um grande público que não tem esse conhecimento e precisa ser informado corretamente.

Ah, o prefeito em questão é Luiz Marinho (PT).

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Tempo e dinheiro jogados fora no horário eleitoral

Ontem, fazendo uso de horário de que dispõe segundo as regras da Justiça Eleitoral, foi a vez do pequeno PMN ocupar a chamada "rede nacional de rádio e televisão". E o que se viu foi mais um horário político que repetiu os vícios que fazem com que essas peças sejam enfadonhas, improdutivas e um belo desperdício de dinheiro e tempo.

Nem me refiro ao cenário feio e aos efeitos visuais que lembravam os programas de TV dos finais dos anos 1980. Isso é algo que se deve à falta de dinheiro, algo que os partidos pequenos convivem diariamente. Não se poderia esperar coisa diferente de uma legenda pequena.

A crítica que faço é ao discurso adotado pelos figurões do PMN no horário eleitoral. A falação dos políticos foi vazia, em nada atraente, de maneira nenhuma cativante ao eleitor. Por exemplo: Sérgio Petecão (foto), deputado federal pelo Acre, falou sobre a Amazônia. Não reproduzo com exatidão as palavras do parlamentar, mas foi algo mais ou menos assim: "defender a natureza e estimular a atividade econômica na região. Essa é a proposta do PMN!".

Aí pergunto: como assim, "essa é a proposta do PMN"? Alguém conseguiu identificar alguma "proposta" na fala de Petecão? Ou será que tem algum partido que ache que não se deve "defender a natureza e estimular a atividade econômica na região"?

Pouco depois, quem falou foi Fábio Faria, o deputado potiguar que está no centro das atenções por ter custeado a viagem de sua então namorada Adriane Galisteu com recursos da Câmara. Ignoremos esse episódio e tentemos manter o foco sobre a propaganda de ontem. Faria fez seu "discurso" baseado na importância do turismo para o Nordeste. Mais uma vez, palavras vazias: "o PMN é a favor de parcerias com a rede hoteleira para que o turismo avance ainda mais" (reafirmo que não é uma transcrição literal, mas sim a reprodução da essência das palavras). Ora, alguém aí esperava que um deputado - seja de qual estado for! - falasse algo diferente?

Não sei até quando os partidos brasileiros acharão que os eleitores querem se sensibilizar com esse tipo de discurso óbvio. Reparem que é sempre a mesma ladainha - todos se dizendo a favor do que é certo e contra o que é errado. O exemplo sobre o qual me baseio é o PMN, um partido minúsculo, mas o vício se repete em legendas de todo porte. Nas maiores, a única diferença é o posicionamento pró ou contra o governo do momento, dependendo para que lado a balança esteja pendendo.

Já é hora de um partido tomar a dianteira e falar, no horário eleitoral, de suas posições convictas. Por exemplo, dizer que é contra/a favor do aborto, da pena de morte, do casamento homossexual ou outra causa. É nítido que isso, no mínimo, chamaria mais atenção por parte dos eleitores.

Clodovil
Ainda na linha horário eleitoral: o PR, em suas inserções no rádio (não sei se isso também tem ocorrido na televisão, agradeço se alguém puder atualizar) tem feito homenagens a Clodovil Hernandes, morto recentemente. A peça é das mais hipócritas, por dois motivos: o primeiro é que Clodovil nunca foi um exemplo de político, e a segunda é que sua relação com o PR foi pra lá de formal, nada tendo a ver com os "ideais" da sigla (se é que eles existem). Mas, do ponto de vista eleitoral, é até interessante, já que há um grande número de eleitores de Clodovil a serem captados na votação do ano que vem. Para onde se dirigirá o voto de protesto que elegeu o ex-costureiro, alguém arrisca?

sexta-feira, 13 de março de 2009

Morrendo pela boca

O novo horário do Democratas, que está em circulação atualmente, reproduz à exaustão aquela infeliz fala de Lula na qual o presidente afirmou que a crise - à época, ainda restrita a poucos países - chegaria ao Brasil como uma "marolinha". A propaganda intercala a fala do presidente com números que apontam que a crise está presente e já causa impactos na economia nacional.

Fato 1: a criação da crise não tem rigorosamente nada a ver com Lula e seu governo. O movimento se iniciou nos EUA, e teve seu ápice lá e na Europa.

Fato 2: independentemente disso, Lula não precisava ter dado essa declaração. De forma alguma.

A espontaneidade de Lula é sempre citada como um dos maiores triunfos políticos do presidente. Ela, segundo análises, seria um dos fatores que mais fariam Lula receber admiração por parte da população; ele conservaria seu jeito "povão", mas com capacidade e qualidade para tomar decisões de chefe de estado. Melhor, impossível.

Mas ao mesmo tempo pode ser um grande fardo. E estão aí as provas. O DEM vai insistir com essa da marolinha enquanto tiver espaço no horário eleitoral; quando forem as vezes de PSDB e PPS, certamente o assunto também vira à tona. Ainda que o governo brasileiro não tenha nada a ver com a geração da crise, pagará parcialmente o pato dela por conta de uma triste fala do presidente.

O que fica como mais curioso da história é o fato de Lula, político calejado, ter caído nessa. Será que ele não poderia ter aprendido com sua ex-ministra Marta Suplicy, cuja passagem pela Esplanada ficou restrita no imaginário popular pelo "relaxa e goza"?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Ei, você aí, me dá um dinheiro aí

O Estadão publicou ontem: CNPq cobra bolsistas que não voltaram para o Brasil.

Em linhas gerais, o texto diz que o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (sim, é isso que quer dizer CNPq) vai correr atrás de pesquisadores que receberam incentivos do órgão para fazer pesquisas no exterior e não deram o retorno previsto em contrato.

Esse retorno, segundo a reportagem, se dá de duas formas: com a pessoa retornando ao Brasil e permanecendo por aqui no mínimo o mesmo tempo que ficou fora e, além disso, apresentando a dissertação ou tese resultante da pesquisa que desenvolveu.

Sinceramente, a medida é tão, mas tão óbvia, que o mais estranho é pensar como isso não foi resolvido antes. Se há um acordo entre duas partes, e uma descumpre o que foi prometido, que compense com os termos previstos em contrato. É assim em todas as negociações do mundo, não poderia ser diferente nesse caso.

O interessante é ver que a notícia estoura justamente agora que a comunidade científica protesta contra redução de verbas para ciência e tecnologia prevista no Orçamento da União para 2009 (veja mais aqui). Claro que ninguém discorda que C&T é uma área estratégica, mas o que se precisa ter em mente é que orçamento público é como "cobertor de pobre": para cobrir um lado, é preciso descobrir o outro. Se está saindo dinheiro da ciência, ele está entrando em outro setor. Não conheço a fundo o caso e, portanto, não sei se realmente esse dinheiro teria que sair da ciência ou se a retirada do montante é um erro estratégico de quem tomou a decisão.

Mas essa medida do CNPq mostra que há desperdício de verbas na área - assim como em todas as que envolvem dinheiro público.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Os "frenemies" de Obama

O português é uma língua belíssima. Mas, em um aspecto específico, perde feio do inglês: a capacidade de síntese. É impressionante como naquele idioma se consegue exprimir significados complexos com duas ou três palavras. Merece destaque também a possibilidade de junção de duas palavras para se chegar numa terceira, algo que está em várias línguas, mas no inglês parece que soa melhor do que em qualquer outra.

Com base nisso, você sabe o que é um frenemy? É até óbvio deduzir: é a soma de "friend" com "enemy", resultando em uma palavra que se refere àquelas pessoas que podem ser amigas e inimigas ao mesmo tempo.

O site politico.com, dos EUA, traz a lista dos 10 maires frenemies de Barack Obama. Gente que está do lado do novo presidente mas dos quais Obama não pode tirar o olho.

A lista inclui gente como o vice-presidente Joe Biden (foto). Biden é experiente e isso certamente foi um dos componentes que colaborou para a vitória de Obama - bastava comparar sua trajetória com a de sua oponente, a já folclórica Sarah Palin. Mas ao mesmo tempo, é chegado numa gafe. Durante a campanha falou que Obama era o "primeiro afro-americano inteligente e bem apessoado", e, ainda antes de ser nomeado vice (quando disputava a indicação democrata para a presidência), cansou de criticar a inexperiência do agora presidente.

Confira a lista completa aqui.

Ao ver essa relação, fiquei pensando em quem seriam os frenemies do nosso presidente. Quem é esse povo que está do lado de Luiz Inácio Lula da Silva mas vez ou outra acaba dando uma cutucada no "hômi"?

O primeiro nome que me veio à mente foi o do "Joe Biden de Lula", José Alencar. O vice-presidente volta e meia se expressa publicamente contra a política econômica do governo - a alta taxa de juros é o seu principal alvo. Quem também não poderia ficar de fora de uma relação dessas são os "aloprados" do PT, nas palavras do próprio presidente, que de vez em quando colocam toda a administração na berlinda.

Quem mais vocês sugeririam?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

John Neschling no olho da rua

Uma notícia interessante que saiu hoje foi a demissão de John Neschling do cargo de maestro da Orquestra Sinfônica de São Paulo (Osesp). A história não é relevante apenas pela sua dimensão cultural, e sim por outros aspectos envolvidos.

Neschling é uma unanimidade. Todas as opiniões que se ouve sobre ele batem na mesma tecla: é uma pessoa extremamente competente no que faz, mas ao mesmo tempo é dono de um caráter não dos mais elogiáveis. A grossura com os músicos que comanda é célebre; o maestro, no comando da Osesp, não fazia a menor cerimônia na hora de repreender alguém que estivesse fazendo um trabalho - ainda que só um pouquinho - em desacordo com as ordens do chefe.

Isso ficou bem claro em reportagem que a Piauí publicou no ano passado. O texto é longo e revela o fato de que Neschling é uma personagem que merece, mesmo, um bom espaço. Justamente por essas questões relatadas, sua competência e sua grosseria.

Mas a demissão de agora não se explica unicamente por um, digamos assim, "desvio de comportamento" do regente. A coisa é mais grave. Neschling nunca se entendeu muito bem com José Serra, governador do estado e seu chefe. Do alto de sua arrogância, o maestro não tolerava as ingerências de Serra no seu trabalho. E a coisa só poderia dar em confusão.

Agora Neschling segue o seu caminho. E, o mais importante, espera-se que a Osesp também siga o seu. É inegável que o maestro, em seus mais de 10 anos de trabalho, transformou a cara da orquestra. Tomara que quem o substituirá consiga manter a excelência - e se for um pouquinho menos grosseiro, melhor ainda.

P.S.: falar de música erudita me faz lembrar do trabalho de assessoria que fiz com a Orquestra de Câmera Paulista. Foi uma experiência bem legal. Recomendo a entrevista que fiz com Vera e Tânia, respectivamente viúva e filha de Camargo Guarnieri. Foi divertido.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Onde está a colher?*

Se você tiver algum tempinho, leia a seguinte notícia: Prefeito assina protocolo de intenções para implantação do SUS na Santa Casa, do site da prefeitura de São Bernardo.

E se o tempo ainda estiver sobrando, leia essa outra: Prefeito de São Bernardo prestigia estréia do São Bernardo na Copa SP.

Notou alguma coisa? Se não, eu aponto: cadê o nome do prefeito? As duas matérias falam sobre ações da pessoa sem citar o seu nome. 

A contestação da minha parte tem razão de ser, não é pura chatice: São Bernardo, como tantas outras cidades do Brasil, trocou de prefeito no dia 1, de modo que fica a dúvida se os textos estão falando do mandatário atual ou do anterior. Pelas datas mencionadas nos textos (dias 6 e 5, respectivamente), nota-se que o citado é o prefeito atual. Mas outra notícia, publicada em 19 de dezembro e que fala sobre algo ocorrido dois dias antes, também cita "o prefeito" sem dizer o nome da pessoa - dá até para interpretar que se trata do prefeito que já deixou o cargo, mas mesmo assim é indiscutível que caberia a citação do seu nome, ainda que a sucessão não tivesse ocorrido.

Ah, antes que eu me esqueça e cometa a mesma falha: o prefeito atual, da Santa Casa e da Copa SP, é Luiz Marinho (PT); o antigo, William Dib (PSB).

*- o título desse post é uma referência à cena final de "Um príncipe em Nova York", comédia sensacional estrelada por Eddie Murphy. O filme acaba com uma cena na barbearia em que um frequentador do local conta uma piada aos que lá trabalham. A piada em questão diz que um homem pede uma sopa em um restaurante e insiste para que o garçom a prove. O garçom quer saber o motivo do pedido - a sopa está quente? está fria? está sem sal? - e quando finalmente cede à solicitação e vai provar a sopa, pergunta onde está a colher. E então o cliente fala: Ahá!  Ou seja, o problema é que a colher estava faltando. Aí termina a piada (que não é das melhores, concordo). O efeito que os textos da prefeitura causam é semelhante: fala-se tanto do "prefeito", mas não se explica quem ele é...